O mês de setembro foi dedicado à conscientização sobre os tumores ginecológicos. A campanha Setembro em Flor reforça a importância da prevenção, do reconhecimento dos sinais de alerta, do diagnóstico precoce e do acesso ao tratamento das neoplasias que acometem órgãos como colo do útero, endométrio, ovários, vulva e vagina.
No Espírito Santo, dados divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) mostram que centenas de novos casos e óbitos relacionados a essas neoplasias são registrados todos os anos. De acordo com o Painel Oncologia Brasil, entre janeiro e 9 de setembro foram contabilizados, no Estado, 104 novos diagnósticos de neoplasias malignas do colo do útero, corpo do útero e ovários. Já o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) registrou 234 óbitos no mesmo período.
Os números são menores do que os registrados nos anos anteriores, mas o cenário reforça a necessidade de ampliar o acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento. Para a oncologista do Hospital Santa Rita, Erika Barreto, as estratégias de enfrentamento devem considerar as particularidades de cada tipo de tumor e a importância de identificar a doença o mais cedo possível.
“Os tumores ginecológicos são doenças diferentes entre si e, por isso, também exigem estratégias distintas. No câncer do colo do útero, por exemplo, temos ferramentas muito eficazes de prevenção e rastreamento. Para outros tumores, como os de ovário e endométrio, é fundamental conhecer os fatores de risco e estar atento aos sinais e sintomas. De forma geral, quanto mais cedo conseguimos diagnosticar a doença, temos mais possibilidades de tratamento e, em muitos casos, de cura”, destaca.
Entre os tumores ginecológicos, o câncer do colo do útero apresenta grande relevância no Brasil. Também fazem parte desse grupo os cânceres de endométrio, ovário, vulva e vagina. Segundo a médica, um dos principais desafios ainda é a desigualdade no acesso à vacinação, ao rastreamento, à investigação diagnóstica e ao tratamento em tempo oportuno.
Atenção aos sinais e sintomas
Os sintomas dos tumores ginecológicos variam de acordo com o órgão acometido. Entre os principais sinais de alerta estão sangramento vaginal fora do período menstrual ou após a menopausa, dor ou desconforto pélvico persistente, alterações no corrimento vaginal, aumento ou distensão abdominal persistente, além de alterações vulvares, como feridas ou lesões que não cicatrizam.
A identificação dessas manifestações e a busca por avaliação médica são medidas importantes para investigar possíveis alterações e favorecer o diagnóstico precoce.
“Esses sinais não devem ser normalizados, principalmente quando são persistentes ou representam uma mudança em relação ao padrão habitual da mulher. É importante procurar avaliação médica para que a causa seja investigada adequadamente”, orienta a oncologista.
Vacinação contra o HPV e rastreamento são fundamentais na prevenção
No caso do câncer do colo do útero, uma das principais estratégias de prevenção é a vacinação contra o HPV, disponível gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para os públicos contemplados pelo Programa Nacional de Imunizações. A imunização é recomendada tanto para meninas quanto para meninos e é uma das medidas mais eficazes para reduzir, no futuro, a incidência de lesões precursoras e do próprio câncer do colo do útero. O uso de preservativos também reduz o risco de transmissão do HPV, embora não ofereça proteção completa contra o vírus.
Além da vacinação, o rastreamento é outro pilar fundamental da prevenção. Segundo a oncologista do Hospital Santa Rita, o SUS iniciou a incorporação do teste molecular de DNA-HPV como método primário de rastreamento do câncer do colo do útero, em substituição gradual ao exame citopatológico, conhecido como Papanicolau.
“O teste de DNA-HPV identifica a presença de tipos de HPV de alto risco oncogênico, relacionados ao desenvolvimento do câncer do colo do útero. A partir do resultado, é possível definir quais mulheres precisam de investigação ou acompanhamento adicional, permitindo identificar alterações antes que evoluam para um câncer invasivo”, explica.
De acordo com a médica, por apresentar maior sensibilidade, o teste de DNA-HPV também permite, quando o resultado é negativo e respeitados os critérios estabelecidos pelas diretrizes de rastreamento, intervalos maiores entre os exames. A estratégia pode contribuir para tornar o programa de prevenção mais eficiente e direcionar a investigação às mulheres com maior risco.
Novas perspectivas no tratamento do câncer de ovário
Além dos avanços na prevenção e no diagnóstico, o tratamento dos tumores ginecológicos está passando por importantes transformações, como a incorporação de terapias direcionadas a características específicas das células tumorais, ampliando as possibilidades de tratamento para determinados grupos de pacientes.
No final de 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o mirvetuximabe soravtansina, comercializado como Elahere, para pacientes com determinados tumores epiteliais de ovário, tuba uterina ou peritônio primário resistentes à platina e com expressão elevada do receptor de folato alfa (FRα), dentro dos critérios estabelecidos para indicação do medicamento.
O mirvetuximabe soravtansina é um conjugado anticorpo-fármaco, conhecido pela sigla ADC. Essa tecnologia associa um anticorpo capaz de reconhecer o receptor de folato alfa presente nas células tumorais a um agente citotóxico. Dessa forma, o tratamento busca direcionar a ação do medicamento preferencialmente às células que expressam esse alvo.
Estudos clínicos de fase III demonstraram benefício em sobrevida livre de progressão e sobrevida global em comparação com quimioterapias utilizadas nesse cenário, ampliando as possibilidades terapêuticas para um grupo de pacientes com opções de tratamento mais limitadas.
Para Erika Barreto, a chegada de terapias direcionadas representa um avanço importante no cuidado de pacientes com câncer de ovário, especialmente diante dos desafios relacionados ao diagnóstico e à resistência aos tratamentos convencionais.
“O câncer de ovário está entre as neoplasias ginecológicas de maior letalidade, em grande parte porque frequentemente é diagnosticado em fases avançadas. Além disso, ao longo da evolução da doença, algumas pacientes podem desenvolver resistência à quimioterapia baseada em platina. A chegada de terapias direcionadas, como o mirvetuximabe soravtansina, representa um avanço importante porque permite selecionar o tratamento de acordo com características específicas do tumor e amplia as possibilidades de controle da doença”.
Informação e acesso ao cuidado podem salvar vidas
Apesar dos avanços terapêuticos, a oncologista ressalta que o desenvolvimento de novos tratamentos precisa estar associado a políticas de prevenção, informação e acesso à assistência. A orientação é que as mulheres conheçam os sinais de alerta, mantenham o acompanhamento de saúde e procurem avaliação médica diante de sintomas persistentes ou alterações no padrão habitual do organismo.
“Não basta termos tratamentos cada vez mais modernos. Precisamos garantir que as mulheres tenham acesso à informação, à vacinação contra o HPV, ao rastreamento quando indicado, à investigação adequada dos sintomas e ao tratamento em tempo oportuno. Quando uma mulher conhece o próprio corpo, reconhece os sinais de alerta e encontra acesso ao cuidado no momento certo, podemos mudar a história da doença. É esse o principal recado do Setembro em Flor: informação também é uma forma de cuidado e pode salvar vidas”, conclui a especialista do Hospital Santa Rita.

